20 de junho de 2026
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Rio, é o que somos todos

Da aspereza de que era recoberta, a menina-caranguejo intrigava a todos os moradores da cidadezinha do interior. Cascuda, feito bicho do mangue, diziam, e não eram poucos os que evitavam qualquer tipo de contato com a pequena.

Aliás, não era só essa sua estranha condição que a marginalizava. Morava no mangue, casinha de pau a pique, cercada de seus semelhantes, crustáceos. Corria à boca miúda que o pai havia se encantado por uma moça da cidade grande, esquisita como ela só, que viera passar as férias por aqui e esse deixara impressionar pela beleza quase exótica do ribeirinho.

Tiveram um caso, a moça foi-se embora para nunca mais voltar. Voltou, mas apenas para devolver-lhe o fruto da paixão desmedida. Voltou com uma criança nos braços, a quem abominava, por simplesmente não crer ter saído dela.

A aparência daquele ser tão inofensivo ofendia os olhos verde-mar do ribeirinho. A decisão da moça, mais ainda. Sentiu-se abandonado duas vezes, a primeira pela desilusão do amor; a segunda, pelo asco da mãe pelo fruto dele. Aceitou-a. Sim, era uma menina, apesar de a aparência grotesca não sinalizar muito bem.

Era um ser humano, afinal, fruto de um amor vivido às pressas e mal compreendido por todos. Moça da cidade se engraçar com ribeirinho só podia dar nisso mesmo, diziam.

Munido da coragem que só pode vir mesmo do amor, criou sozinho a menina. Do pouco de que dispunha, deu-lhe tudo, inclusive educação, já que era simplesmente impensável frequentar a escola regular do povoado. Já não bastavam os comentários das pessoas próximas? Expô-la à maldade infantil seria demais! Crianças podem ser por demais cruéis.

Houve quem o ajudasse nessa sua tarefa hercúlea de criar uma menina tão diferente das demais sozinho. Houve quem praguejasse, sempre há. O fato é que ele conseguiu levar a cabo sua intenção. Alimentou-a, protegeu-a, se não do mundo, de sua parcela de maldade e indiferença.

A menina cresceu, como crescem os espíritos livres, mas quando atingiu uma certa idade, a chamada adolescência, algo mudou.

Já não falava tanto quanto antes, evitava até mesmo o mangue, quintal de casa, onde passara boa parte da infância em brincadeiras solitárias, mas que a faziam feliz. Deixou de ser carinhosa com o pai, passou a questionar sua sina. Via na TV as meninas de sua idade, as propagandas de produtos de skincare, e olhava para a pele, que não era pele, mas uma crosta, cada vez mais espessa, avermelhada, rija feito casco de caranguejo. Os olhos afundados, muito delicados para aquela moldura grosseira. Os lábios, quase desaparecendo, misturando-se à rigidez de todo o resto do que se poderia chamar de face.

Movimentos cada vez mais limitados também, sua pele-carapuça a prendia em si mesma, sempre sozinha, sempre ensimesmada.

Se é que algum dia houve nela algum resquício de alegria, simplesmente desaparecera. Ela mesma ia, aos poucos desaparecendo; os raros vestígios de alguma humanidade dando lugar à cobertura cruel.

Já não falava mais, passou a se alimentar menos ainda. Passava longos períodos o olhar perdido na imensidão do mangue. O pai, já idoso, notara a mudança de comportamento. Tentou mais junto dela, ela recusou, sabia que aquela sina era sua e só sua, e já bastara ao velho homem o fardo de tê-la criado.

Mutação genética? Maldição? Nunca se soube a razão de ter nascido assim. Os interiores parecem mesmo canonizar mistérios, mas nunca encará-los.

E ela indo, e ela desistindo, ou simplesmente se entregando à sua sorte?

Cada vez mais longe, de casa, de sua vida de mentiras e privações… Cada vez mais inteira, cada vez mais distante das margens… Quando chegou ao leito do rio, arrastando-se, já havia se transmutado por completo.

O velho pescador, que mais tarde relatou o ocorrido, deixando a cidade boquiaberta, mal podia acreditar no que seus olhos cansados viam.

A menina-caranguejo era agora, inteiramente caranguejo, e estava livre, finalmente, livre!

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