Vermelho-sangue
17 de julho de 2026 • Por Ana Raquel Fernandes
Já tinha treze anos e nada ainda de sua regra descer. As colegas da escola, sim, colegas, não poderia chamá-las de amigas, todas já haviam menstruado e ostentavam nas bolsas a necessaire com o absorvente, artigo de luxo, objeto de desejo da outra. Sim, havia um compartimento específico para envolver o item. E ela onde escondia sua vergonha?
Iam ao banheiro apressadas, preciso trocar, você sabe… E ela, nada, nada do sangue descer. Esperava por ele todo santo dia, como quem espera pela chegada de uma grande bênção, como se as grandes bênçãos não fossem mesmo pequenas inadvertidas alegrias cotidianas.
Sentia uma pontada de inveja das meninas-mulheres, toda vez que uma delas relatava as cólicas ou a necessidade de usar absorventes internos. Como seria usar um daqueles? Daqueles ela tinha um pouco de medo, iam rasgá-la por dentro, maculando sua inocência? Será que as meninas-mulheres que ouvia sempre em seus relatos orgulhosos já haviam sido desvirginadas? Se sim, não sabia, mas até nisso estava e permaneceria atrasada por muito tempo ainda…
Enganava a si mesma, sentindo cólicas imaginárias, fluidos na calcinha, que não, não eram o aguardado sangue menstrual. Chegou a precipitar-se mostrando à mãe qualquer coisa que aparecera no fundilho de sua calcinha. Não, não era sangue ainda. Vergonhoso, mais que vergonhoso, decepcionante. Será que ela tinha algum problema? Sofria de alguma doença qualquer que impedia seu corpo de menina de finalmente transmutar-se em mulher? Não seria mulher nunca? Afinal, e isso aprendera desde sempre, ser mulher é sangrar, constatação essa que só retificou-se mais tarde diante de outras tantas descobertas da vida.
Mulher foi feita para sangrar.
E quando o sangue finalmente desceu, pasmem, pegou a inexperiente menina desejosa de ser mulher de surpresa. Ela chegou a duvidar do que via, tantos haviam sido os falsos alarmes. E não podia conter a alegria da descoberta: sim, finalmente, menstruara!
Como ignorara as dores lancinantes na barriga? Justificara o injustificável? Exagerara na comida, era isso… só uma má digestão. Talvez sua mente tenha desistido um pouco de pensar naquilo que lhe faltava; o cérebro não atinou para os sinais todos, justamente quando esses se fizeram mais claros. Sentia cólica, e muita.
Menstruou muito também. Mas era tão excitante ter de justificar-se toda hora para ir ao banheiro… Sentia-se agora uma igual, já não era mais a menina que apenas acompanhava as colegas ao banheiro e não conhecia a sensação de trocar um absorvente. Trocava os seus, e com bastante frequência, se não, era bem capaz de sujar-se toda. Aliás, quem é que nos embutiu essa ideia de que o sangue menstrual é sujo?
Mais tarde, só mais tarde, quando tomou consciência do papel avassalador do patriarcado é que foi entender o porquê dessa afirmação, repetida tantas vezes, a ponto de quase tornar-se verdade. Só mais tarde, quando entendeu que seu sangue, mês a mês se misturava ao de tantas outras mulheres, suas semelhantes, e era ele quem fazia o mundo girar e detinha o poder de gerar vida ou detê-la, é que passou a enxergar a menarca com olhos realistas no lugar de olhos encantados.
Menstruar era só o início do sofrimento. Mais tarde, viria o gozo?
Ele veio, mas só depois da dor. Sempre doía, não importava o empenho do homem, ou a falta, dele, aliás, alguns deixaram muito a desejar nesse quesito. Preliminares são importantes.
E menina, agora mulher, mas sempre menina, deparou-se com o sangue ainda inúmeras vezes, mês a mês, dores após dores. Nunca engravidou, não transmitiu, através de seu sangue, a miséria de sua existência. Sangrou por demais, e a vida toda. Ser mulher não é sangrar, afinal?
Não poucas vezes maldisse o dia em que, boba adolescente desejou o sangue. Não atinava para as dores todos que o acompanhariam? Ser mulher, tornar-se mulher, sangrar! Todo mês, a vida toda.
Mas nada comparado ao dia em que se viu deitada de bruços (não, ele não tivera culhões para acertá-la cara a cara) sobre uma poça de sangue, seu sangue, bonito, de um vermelho-vivo que, se pudesse, reproduziria em uma cor para batom e esmalte. Engasgou-se com ele, tinha gosto de ferrugem, e isso a despeito de sua constante anemia. Sentiu-o deixar seu corpo, perdeu as forças, não conseguiu levantar. Ser mulher é sangrar, pensou enquanto seu cérebro ainda conseguia conjecturar alguma lógica. Engoliu mais daquele sangue, tão seu, tão íntimo e constatou, antes que sua derradeira força se esvaísse: Aquele sangue, todo sangue, afinal, tinha gosto de homem.
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